fiz este poema
...........à minha imagem
& semelhança:
frágil templo
...........de palavras
consumidas
...........pelo tempo
Esta vertigem da escritura faz fronteira simultaneamente com o invisível e a existência, criando um espaço de reflexão que confluí para um ponto onde o poema se abre, explode ("Pero el hombre / allí no tendrá peso, / allí no será nadie"). Esta é uma poesia de confrontação direta com as limitações da linguagem, revelando de modo admirável seu poder, sua miséria. Somos impelidos a mover-nos assim em um ambiente onde as dúvidas materializam-se como uma experiência de comunicação com o essencial. Neste processo de incisiva agressividade o poeta vê, sente, respira através de suas palavras, pondo à prova os próprios limites da literatura através da manipulação de uma linguagem simples, uma linguagem de natureza elementar, que desnuda os fundamentos que permanecem ("Detrás del silencio, / detrás del espacio vacío, / detrás de lo que no existe”). Buscando um reencontro com a palavra que é a representação da própria vida, ou como pretendia Artaud com “a Palavra anterior às palavras”. 
Karen Stiehl Osborn - Fragment 7
*Antônio Moura nasceu em Belém do Pará, em 1964. Publicou, em 1996, o livro "Dez", selecionado pela Universidade de Madri -Departamento de Filologia, para integrar a antologia internacional de poesia e crítica "Serta", reunindo poetas de línguas ibero-românicas, entre eles o poeta, tradutor e crítico literário Haroldo de Campos.Roteirista de cinema e vídeo, Antônio Moura atua nesta área como professor no Centro de Comunicações e Artes do Senac-SP. Trabalhou na realização do roteiro do médiametragem "Geraldo Filme", ganhador do prêmio de melhor filme brasileiro no "It's AU True - Festival Internacional de Documentários de São Paulo" e do Prémio Especial do Júri, no 26ª Festival Latino-Americano de Gramado. Colaborou ainda como tradutor no site O Poema.Em 1999, lançou seu segundo livro de poemas intitulado "Hong Kong & outros poemas", pela Ateliê Editorial, com prefácio de Benedito Nunes.Tem seus poemas publicados nas antologias Serta, de Madri e New American Wrighters, EUA, (traduzidos para o inglês). Além da antologia de poesia brasileira Poesia de Invenção no Brasil, editora Landi, São Paulo, 2002.Lança pela Lumme Editor de São Paulo o livro de poemas "Rio Silêncio" no Brasil e em Portugal, que foi muito bem recebido pela crítica do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, despertando em revistas de forte cunho literário como a carioca Inimigo Rumor, do poeta Carlito Azevedo, a Revista Zunai, do poeta e crítico paulista Claudio Daniel, e a Medusa de Curitiba, o interesse em publicar matérias em suas páginas sobre sua obra.No mesmo período publica "Quase-Sonhos", com tradução dos poemas do poeta africano nascido em Madagascar, Jean-Joseph Rabearivelo, portanto, de língua francesa e totalmente inédito no Brasil.para Ronaldo Freitas
que sonhos sonha
xxxxxxxxxxcom óculos tortos
& um livro sobre o peito
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo velho e seu
ronco engasgado
como se a morte
xxxxxxxxxxviesse a todo
instante cortejar
seu leito incólume
xxxxxxxxxx& a vida fosse
um mero lamento
regado a cerveja
xxxxxxxxxx& cigarro
num eterno
arrastar de sandálias
xxxxxxxxxxxxxxxxxxpelo infinito
da madrugada

o louco persegue
a insígnia incendiária
do sol
num bailado oriental
sobra sobre
a janela um
pobre poema
sob o sal
do deserto
:
uma palavra-sopro
desfaz a pálida
voz do vento
Nesta quarta-feira, dia 2 de julho, quem curte cinema e literatura em Belém vai contar uma programação especial para o final de tarde. A partir das cinco horas, no espaço de ensaios da loja Ná Figueredo, vai acontecer o coquetel de pré-lançamento do Circuito Cultural Semeadura. O evento será uma prévia da programação que começará oficialmente em agosto e pretende movimentar eventos, idéias e discussões sobre literatura, cinema e arte contemporânea em geral na cidade. Acrílica, pastel seco e nanquim sobre tela - Paulo Ponte Souza
a solidão é tátil:
título de um livro
que se inscreve
em tempo
& ausência
esmorecer
de uma espera:
íntimo naufrágio
a solidão dispensa
metáforas ou
soluções de estilo
sua língua é
o estilete
sua página
a pele
Stephen Spender....................................Tradução Pedro Vianna
ainda não matei todas as baratas desse lugar
mas já peguei a maioria delas. há duas
que não consigo pegar. ficam dentro do revestimento plástico
do meu rádio, Solid State FM-AM, onde
o indicador vermelho seleciona as estações
quando giro o botão. só ouço duas
estações de FM, KUSC e KFCA, respectivamente. são
estações de música clássica.
aquelas baratas são cultas. elas ouviram a 9ª de Beethoven
na noite passada e agora estão o a ouvindo 2ª
de Brahms. não estou certo do que elas estão tramando, mas
elas estão calmas. somente suas antenas se mexem
de vez em quando.
desde então elas estão diferentes. elas estão até começando
a parecer críticos musicais. Quanto a isso, por favor
compreendam que não pretendo
ofender as baratas.
Charles Bukowski........................Tradução Pedro Vianna
Deixem-nos enlouquecer abertamente.
Ó homens de minha geração.
Deixem-nos seguir
Os passos dessa época abatida:
Vê-la atravessar a turvo território do Tempo
Adentrar o cárcere da eternidade
Com o ruído que a morte carrega,
Com a face que veste as coisas mortas –
Nem sempre dizer
Nós queríamos mais; nós tentamos encontrar
Uma porta aberta, um ato de amor total
Transformador da treva maligna do dia;
mas encontramos mais inferno e neblina sobre a terra
e dentro da cabeça
Um pântano podre de imensos túmulos tortos.
Kenneth Patchen.........................Tradução Pedro Vianna
O imaginário é a raiz quadrada
de um número negativo
e como tal não tem
o significado no ilusório senso-comum
em termos físicos comuns
nem se pode medir a extensão
do imaginário em termos temporais
é sem sentido e auto-destrutivo
porque não há singularidades
no tempo imaginário só eternidade
finito mas sem fronteiras
assim como a superfície da terra
é finita mas ilimitada
quando nós o buscamos
e sempre que encaramos o horizonte
a eternidade passa num segundo
Raymond Federman..............................Tradução Pedro Vianna

The Poppy Queen - Beverley Ashe
lábios & mãos con
somem o
oco das horas
sobre
vivendo à
escrita elétrica da luz
com navalhas
toc
ando as entranhas
do espírito
feito
sacra
rio entre
tec(ido) na
fronte do poeta
ou voz petri
ficada
procur
ando
sil(abas) azuis
que a res
piração dos páss
aros
leva
consigo
ó
solit
ária injuria
semeada no in
visível
frac
assadas as
cíclicas fugas dos
auto
móveis
rumo ao fogo
inconsumível do o
caso ress
urge
ante a textura das marés
de escárnio
um exército
de sombras vege
tais
per
seguindo relâm
pagos
muito além
das prom
essas
onde naufraga o
esqueleto das convicções
é que res
s(urge)
a impiedosa voz da vi
leza tal altiva
embarc
ação deslizando
contra o fluxo
envene
nado das marés
ou edifícios
chicote
ando o
hí(men) ard
ente dos pesad
elos
o poeta indig
nado
exalta a morte
em suas pálpebras
petri
ficadas
re(colhe)ndo
cacos da real
idade
no peçonhento
poço do poema
como quem co
leciona
(in)s etos
por vaidade
posso
inventar mil desculpas
para o osso torto
desse poema
mas venta na nave da noite
e a razão vaza entre
os dedos
sei
que abusei da palavra
batendo de porta em porta
a vender-lhe a morta larva
mas um
instante acontece
e logo tece
o que era antes
:
ante
cede