
Contava que Bienvenido Granda, El Bigode Cantante, no auge de sua carreira, fora traído pela esposa com seu melhor amigo. O cantor desesperado, teria assassinado os dois e fugido para o Brasil. Mais exatamente para Belém. Ali teria raspado o famoso bigode e terminado seus dias como garçom num hotel da capital. Depois da morte do pai ela descobrira que tudo não passava de uma estória furada. Uma mentira provavelmente contada por um marinheiro bêbado, num dos muitos bordeis das margens do Amazonas. No entanto ela repudiava a verdadeira versão da morte de Bienvenido, e defendia a versão do pai como se fosse uma herança. Um conhecimento secreto. Uma versão íntima.
Orimar. Bem mais que um neologismo criado pela supressão das letras e-n-l-a-l-l-a-d-e-l no título de um bolero antigo, aquele nome sintetizava um ideal construído no âmago de sua solidão. Um ideal de reencontro com as tardes de correria pelos quintais de chão batido; os banhos de rio entre meninos e peixes; a varanda da casa iluminada pela pálida luz da lua; o pai jogado no fundo da rede. O pai. Ela buscava o pai no homem por trás do nome. Orimar. Mas Orimar jamais teria mãos para enxugar as próprias lágrimas.Não havia poder algum naquelas mãos. Talvez ele não tivesse força nem para lágrimas. Ele era fraco.
Por isso ela não pediu à lua que Orimar voltasse naquela noite, mas no fundo esperava por ele com uma viciada espera pela droga. Esperava seus passos na escada; seus olhos a evitá-la; sua arrogância incontida; e, sobretudo, ela esperava por sua crueldade. Sua crueldade que mesmo agora, tombado como um cadáver no sofá, ele exercitava absoluto. Por um momento pensou em matá-lo. Sim. Poderia matar facilmente aquele homem fraco, mas o pensamento era demasiado, artificial. Ela era muito forte para a crueldade. Herdara além de uma versão intima sobre o fim de Bienvenido, as mãos poderosas do pai. Mãos que trariam o ventilador para a sala. Cobririam o corpo sujo de Orimar. Mãos que enxugariam as próprias lágrimas.