
domingo, 7 de setembro de 2008
Roberto Juarroz: a vertigem da linguagem

quarta-feira, 23 de julho de 2008
Os fragmentos da Semente
Karen Stiehl Osborn - Fragment 7
Desde a sua grafia, o poema tem, paradoxalmente, no fragmento a sua unidade: a fragmentação visual, através do olhar que depara com o espacejamento fraturado do texto; a fragmentação rítmica, que compõe um sonoridade em staccato ao longo de toda a leitura e, por último – mas não menos importante na totalidade do poema – a fragmentação psíquica a que o sujeito, tanto no interior da cidade quanto no interior do poema, está exposto. Fragmentos de luz, de sombra, fragmentos do desejo, da repulsa, fragmentos do corpo, da mente, armando e desarmando jogos de montar e desmontar a memória, a infância, o cotidiano, a história, o mito, o silêncio e a palavra. Este é um espaço onde a poética se desenrola através da acumulação de sentidos, numa voz lírica impessoal e indeterminada, num lugar onde “Nem/ a áspera língua do poeta/ estendida/ no/ chão/ vazado das palafitas/ como/ cadáver das marés/ anoitecidas/ em/ círios/ de embriaguez exaltada/ traz algum/ resquício de conforto/ para a/ triste/ &/ promíscua procissão/ de almas/ em convulsa monotonia. Cenário onde a miséria social e a miséria anímica se fundem num pesadelo onde nada acena com um possível conforto.
Já havia assinalado em relação ao seu primeiro livro, Itinerário Interno, que, apesar de centralizado num eu lírico, o verdadeiro personagem do texto era o caminho, de fora para dentro, percorrido por um olhar transfigurador, que, a meu ver, é inerente a arte e a poesia. Neste trabalho presente o itinerário interno continua, só que numa tensão ainda maior em que “um movimento denso/ construindo/ cicatrizes/ na arquitetura imaginária/ do/ tempo/ perdido/ amortece/ os nervos/ da cidade metálica/ alimentando/ a fúria dos barcos/ entre aromas/ &/ carnificina/ onde/ a morte foi seqüestrada/ pelos espelhos/ da/ infância. Uma fratura permanente na paisagem, nos objetos, no sujeito e na temporalidade que engloba a memória da infância lançada para o presente com todo o peso das coisas existentes, num “horizonte encarcerado”, quase sempre provocante e hostil.

quarta-feira, 9 de julho de 2008
A estranha mensagem
Ele veio nas trevas quando havia silêncio
e de novo trouxe a ternura dos galhos tombando para a madrugada.
Eu subi do fundo do mar como um líquen liberto
para ouvir a sua voz que era imensa
e trazia a ansiedade das flores explodindo,
mas só vi o silêncio enorme como a noite.
E ela chorou dentro de minha tristeza
porque era como a revelação do que eu havia perdido.
Ainda trazia nas mãos o frio dos troncos úmidos da noite,
e nos olhos a humildade da terra encharcada de chuva.
Um dia eu descerei verticalmente e para sempre
ao fundo deste mar onde ela mora
como um barco de pescadores desaparecidos.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
o velho
para Ronaldo Freitas
que sonhos sonha
xxxxxxxxxxcom óculos tortos
& um livro sobre o peito
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo velho e seu
ronco engasgado
como se a morte
xxxxxxxxxxviesse a todo
instante cortejar
seu leito incólume
xxxxxxxxxx& a vida fosse
um mero lamento
regado a cerveja
xxxxxxxxxx& cigarro
num eterno
arrastar de sandálias
xxxxxxxxxxxxxxxxxxpelo infinito
da madrugada
sexta-feira, 4 de julho de 2008
happening
o louco persegue
a insígnia incendiária
do sol
num bailado oriental
sobra sobre
a janela um
pobre poema
sob o sal
do deserto
:
uma palavra-sopro
desfaz a pálida
voz do vento
terça-feira, 1 de julho de 2008
Curtas metragens alemães e poesia contemporânea paraense.

A programação começará com a projeção de 5 curtas-metragens alemães cedidos pelo Instituto Cultural Amazônia. São curtas independentes de uma academia de cinema alemã chamada Baden Wutenberg Academy, todos produzidos por estudantes de cinema com apoio de cineastas famosos, como Wim Wenders. A Exibição desses curtas no Brasil foi a contrapartida do ICAB para a Mostra de cinema da Amazônia na Alemanha, realizando assim o intercambio cultural entre os dois países. Alguns desses curtas foram selecionados para o Student Academy Awards europeu.
Em seguida o poeta paraense Pedro Vianna fará a leitura de alguns poemas de seu novo livro, Sementes da Revolta. O livro, vencedor do I Prêmio Ipiranga de Literatura, foi bem recebido crítica, tendo sido prefaciado pelos renomados poetas João de Jesus Paes Loureiro e Antonio Moura. Sementes da Revolta é o segundo livro da carreira de Pedro Vianna e foi lançado no último dia 21 de junho. Esta será a primeira oportunidade do poeta de ler e trocar impressões sobre o texto recém saído da gráfica com o público.
A programação terminará com uma mesa redonda com time de peso discutindo poesia contemporânea. Os convidados são: Antonio Moura, autor de Dez (Gráfica & Editora Supercores, 1996); Hong Kong & outros poemas (Ateliê Editorial, 1999); e Rio Silêncio (Lumme Editor, 2003). Nilson Oliveira, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (Edições IAP, 2006), Benoni Araújo autor de Não por acaso dispersos (Inédito) e Pedro Vianna, autor de Itinerário Interno (Edição do Autor, 2007); e Sementes da Revolta (Fundação Ipiranga, 2008) que pretendem abordar a temática: Poéticas da Transgressão.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
naufrágio íntimo
Acrílica, pastel seco e nanquim sobre tela - Paulo Ponte Souza
a solidão é tátil:
título de um livro
que se inscreve
em tempo
& ausência
esmorecer
de uma espera:
íntimo naufrágio
a solidão dispensa
metáforas ou
soluções de estilo
sua língua é
o estilete
sua página
a pele
domingo, 22 de junho de 2008
Matéria Jornal Liberal 21/ 06/ 2008 "Pedro Vianna lança hoje livro de poemas"
'Sementes da Revolta' está sendo publicado como prêmio por um concurso editorial
O poeta Pedro Vianna lança hoje, no Colégio Ipiranga (avenida Almirante Barroso, entre Humaitá e Vileta), o livro Sementes da Revolta, publicado como premiação do concurso de poesia promovido pela Fundação Ipiranga, no qual ele tirou em primeiro lugar. Sobre o livro, o também poeta Antônio Moura escreveu:
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Algum dia
que penetre teu ventre e o fecunde,
que pare em teu seio
como uma mão aberta e fechada ao mesmo tempo.
Acharei uma palavra
que detenha teu corpo e o entorne,
que contenha teu corpo
e abra teus olhos como um deus sem nuvens
e use tua saliva
e te dobre as pernas.
ou talvez não a compreendas.
Não será necessário.
Irá por teu interior como uma roda
percorrendo-te ao fim de ponta a ponta,
mulher minha e não minha
e não se deterá nem quando morras.
Roberto Juarroz.............................Tradução Pedro Vianna
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Alvorada
Que, quando ela dorme, parece a face talhada de um anjo.
Seu cabelo uma harpa, que a mão da brisa persegue
E toca, contra a nuvem branca dos travesseiros.
Então, em uma explosão rosa, ela acordou, e os seus olhos abertos
Nadaram em azul através de sua rósea carne amanhecida.
Do orvalho de seus lábios, a queda de uma palavra
Caiu como a primeira das fontes: murmurou
"Querido", em meus ouvidos a canção do primeiro pássaro.
"Meu sonho torna-se o meu sonho", ela disse, "realizado.
Eu acordei de você para o meu sonho de você."
Oh, meu próprio sonho acordado então ouso assumir
A audácia do seu sono. Os nossos sonhos
Vertidos nos braços um do outro, como riachos.
Stephen Spender....................................Tradução Pedro Vianna
sábado, 8 de março de 2008
panasonic
ainda não matei todas as baratas desse lugar
mas já peguei a maioria delas. há duas
que não consigo pegar. ficam dentro do revestimento plástico
do meu rádio, Solid State FM-AM, onde
o indicador vermelho seleciona as estações
quando giro o botão. só ouço duas
estações de FM, KUSC e KFCA, respectivamente. são
estações de música clássica.
aquelas baratas são cultas. elas ouviram a 9ª de Beethoven
na noite passada e agora estão o a ouvindo 2ª
de Brahms. não estou certo do que elas estão tramando, mas
elas estão calmas. somente suas antenas se mexem
de vez em quando.
desde então elas estão diferentes. elas estão até começando
a parecer críticos musicais. Quanto a isso, por favor
compreendam que não pretendo
ofender as baratas.
Charles Bukowski........................Tradução Pedro Vianna
domingo, 2 de março de 2008
Deixem-nos enlouquecer
Deixem-nos enlouquecer abertamente.
Ó homens de minha geração.
Deixem-nos seguir
Os passos dessa época abatida:
Vê-la atravessar a turvo território do Tempo
Adentrar o cárcere da eternidade
Com o ruído que a morte carrega,
Com a face que veste as coisas mortas –
Nem sempre dizer
Nós queríamos mais; nós tentamos encontrar
Uma porta aberta, um ato de amor total
Transformador da treva maligna do dia;
mas encontramos mais inferno e neblina sobre a terra
e dentro da cabeça
Um pântano podre de imensos túmulos tortos.
Kenneth Patchen.........................Tradução Pedro Vianna
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
cura
curvatura arma
uma trama
:
urge
sem rumo
nem rumores
cem mouros
:
morrem
sobra um
homem ruim
sobre a obra
:
run home
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Encarando o horizonte
O imaginário é a raiz quadrada
de um número negativo
e como tal não tem
o significado no ilusório senso-comum
em termos físicos comuns
nem se pode medir a extensão
do imaginário em termos temporais
é sem sentido e auto-destrutivo
porque não há singularidades
no tempo imaginário só eternidade
finito mas sem fronteiras
assim como a superfície da terra
é finita mas ilimitada
quando nós o buscamos
e sempre que encaramos o horizonte
a eternidade passa num segundo
Raymond Federman..............................Tradução Pedro Vianna
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
oferenda
The Poppy Queen - Beverley Ashe
para narjara oliver
deponho
à teus p(és)
os espólios da
batalha:
a tímida espera
ante
as marés de sonho
o espesso
óleo
saído
do vão das
fer-teis-idas
as
ós(sea)s noites
de carne
&
abandono
meus
las(sos) olhos
costurados
à
tua mortalha
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
a língua do relâmpago
lábios & mãos con
somem o
oco das horas
sobre
vivendo à
escrita elétrica da luz
com navalhas
toc
ando as entranhas
do espírito
feito
sacra
rio entre
tec(ido) na
fronte do poeta
ou voz petri
ficada
procur
ando
sil(abas) azuis
que a res
piração dos páss
aros
leva
consigo
ó
solit
ária injuria
semeada no in
visível
frac
assadas as
cíclicas fugas dos
auto
móveis
rumo ao fogo
inconsumível do o
caso ress
urge
ante a textura das marés
de escárnio
um exército
de sombras vege
tais
per
seguindo relâm
pagos
muito além
das prom
essas
onde naufraga o
esqueleto das convicções
é que res
s(urge)
a impiedosa voz da vi
leza tal altiva
embarc
ação deslizando
contra o fluxo
envene
nado das marés
ou edifícios
chicote
ando o
hí(men) ard
ente dos pesad
elos
o poeta indig
nado
exalta a morte
em suas pálpebras
petri
ficadas
re(colhe)ndo
cacos da real
idade
no peçonhento
poço do poema
como quem co
leciona
(in)s etos
por vaidade
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Palavras
Antonio Moura
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
justificativa
posso
inventar mil desculpas
para o osso torto
desse poema
mas venta na nave da noite
e a razão vaza entre
os dedos
sei
que abusei da palavra
batendo de porta em porta
a vender-lhe a morta larva
mas um
instante acontece
e logo tece
o que era antes
:
ante
cede